27/04/2010

FEIRA DO ROLO TEM ATÉ ''ARMAS DE FOGO'' EM SÃO PAULO


fonte:marici capitelli (jornal da tarde)grupo estado (direitos reservados)





Celular roubado em ‘oferta’ na feira do rolo no centro
Mercado clandestino a céu aberto reúne pelo 200 homens, todos os dias, perto da Praça do Correio. Vendedores oferecem modelos modernos por até R$ 100. Questionados, muitos admitem que os produtos são fruto de crime


“Quer comprar esse celular ?”, oferece para a reportagem do Jornal da Tarde um dos quase 200 homens que vendem aparelhos roubados e furtados todos os dias na feira do rolo da Praça Pedro Lessa, no centro. O vendedor continua: “Olha que beleza. Ele tem duas câmeras, uma na frente e outra atrás, TV, acesso à internet, MP3 e bluetooth. Veja a perfeição da imagem da TV”. “Quanto custa?”, questiona a repórter. “R$ 170.” A repórter faz menção de ir embora.

O homem continua. “Então, tá. Para você, R$ 150. Até R$ 120 dá para fazer. Pode colocar o seu chip e testar (entrega o aparelho para a reportagem). Está liberado para duas operadoras.”

A repórter prossegue a conversa: “Moço, eu gostei. Mas esse celular é roubado?” O vendedor responde: “É. Uns caras trazem para a gente. Mas olha bem, não tem nenhum riscadinho. Tá novinho mesmo (fica virando o aparelho e mostrando)”. “Mas não dá rolo?”, pergunta o JT. “De jeito nenhum. Pode colocar o chip. Duas operadoras”, garante. A repórter insiste: “Mas é roubado...” Animado, o vendedor responde: “Já foi. Você nem conheceu a pessoa”.

Como ele, outros homens com centenas de celulares usados, alguns com sacolas cheias, vendem os equipamentos na frente da Polícia Militar, que tem uma base comunitária a poucos metros dali, e da Guarda Civil Metropolitana (GCM). Para a Polícia Civil, não restam dúvidas que os aparelhos são fruto de crime.

Comerciantes e moradores se dizem aterrorizados com a ação dos vendedores, que atuam das 17h às 22h, e afirmam estar cansados de pedir providências para a solução do problema, que começou há dois anos.

Durante três dias, a reportagem do JT circulou pela feira. Em dois deles, se passou por turista em busca de um celular moderno e barato, além de outras pechinchas. Em dois dias, a feira foi realizada na Praça Pedro Lessa. No terceiro, durante duas horas, o comércio ilegal aconteceu na Rua Capitão Salomão e, no tempo restante, novamente na praça.

Assim que começou a circular pela feira, que é formada praticamente só por homens, a reportagem foi assediada por vários vendedores. Alguns tinham aparelhos em sacolas, outros em pochetes e a maioria segurava dois ou três celulares nas mãos. Um jovem casal tinha duas sacolas cheias de telefones. Os produtos ficavam com a moça, que permanecia sentada na Praça do Correio. O rapaz tentava negociar os dois aparelhos que tinha nas mãos.

Todos mostram os telefones enfatizando seus recursos, como acesso à internet, câmeras, capacidade da memória etc. Também permitem que o cliente coloque o próprio chip no aparelho para testar. Os preços variam de R$ 100 a R$ 200. Questionados sobre a origem dos produtos, os vendedores são evasivos: “Aqui é a feira do rolo, né? Tem de tudo”.

Polícias Civil, Militar e Secretaria Municipal de Segurança Urbana afirmam que estão trabalhando para combater o crime. Ontem, a PM fez algumas apreensões, mas assim que deixou a área, os vendedores voltaram. Essa situação ocorre todos os dias, segundo comerciantes e moradores.

Além dos celulares, é possível encontrar produtos usados e roupas com etiquetas de grifes, que podem ser compradas por encomenda. Um vendedor de armas também aceita pedidos de pessoas indicadas.

O clima no local é sempre tenso. Um homem que se apresentou como “dono da feira” desconfiou da reportagem no segundo dia e foi direto: “Se você tentar prejudicar minha feira, vou ser obrigado a acabar com você”. Ele chegou com três sacolas cheias de aparelhos novos, que repassava aos vendedores por preços entre R$ 5 e R$ 10. Disse que é dono de lojas, mas não soube explicar a vantagem de vender os celulares a um preço tão baixo.

Em um dos dias, uma viatura da GCM passou boa parte do tempo estacionada em frente à feira. Mas os guardas não interromperam o mercado clandestino. Uma base da polícia comunitária também funciona em frente ao local. Em um dos dias, a presença de dois policiais militares nas proximidades não constrangeu os vendedores.

O que diz a lei
Quem vai à feira do rolo esperando fazer um bom negócio e compra mercadoria sem procedência está cometendo crime: receptação (artigo 180 do Código Penal). “Adquirir, receber ou ocultar, em proveito próprio ou alheio, coisa que sabe ser produto de crime, ou influir para que terceiro, de boa-fé, a adquira, receba ou oculte”. Pena: reclusão de um a quatro anos e multa

O artigo especifica ainda, em seu 3º parágrafo, a receptação culposa. “Adquirir ou receber coisa que, por sua natureza ou pela desproporção entre o valor e o preço, ou pela condição de quem a oferece, deve presumir-se obtida por meio criminoso”. Pena: detenção de um mês a um ano, ou multa, ou ambas as penas

Os vendedores dos celulares roubados juram aos compradores desavisados que não há qualquer problema para quem adquire os produtos

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